Vamos falar do assunto que todo mundo está comentando: a Copa do Mundo. Tem vários desses modelos de previsão rolando por aí, e não é à toa — todo mundo quer saber quem leva a taça. Algum tempo atrás eu fiz alguns modelos para o Campeonato Brasileiro, e decidi pegar a mesma ideia e dar uma ajustada para a Copa.
Testei vários modelos até decidir usar a Simulação de Monte Carlo. Na minha opinião, é o que produz os melhores resultados. Neste post eu explico como ele funciona — sem complicar — e o que ele diz sobre os favoritos (e, claro, sobre o Brasil).
O que é a Simulação de Monte Carlo?
A ideia tem nome de cassino, e não é coincidência. O método moderno foi desenvolvido no fim dos anos 1940, no laboratório de Los Alamos, pelos matemáticos Stanislaw Ulam e John von Neumann, durante as pesquisas nucleares que vieram logo depois do Projeto Manhattan. O nome "Monte Carlo" — uma referência ao famoso cassino de Mônaco — foi batizado por um colega, Nicholas Metropolis, porque o tio de Ulam adorava apostar por lá.
Mas a ideia de usar o acaso para resolver contas difíceis é bem mais antiga: já no século XVIII existia a "agulha de Buffon", que estimava o valor de π simplesmente jogando uma agulha no chão repetidas vezes e contando quantas vezes ela cruzava uma linha.
E é exatamente isso que o método faz: em vez de tentar resolver uma conta complicada de uma vez só, ele usa o acaso e a repetição. Imagine que você quer saber a chance de tirar dois "6" seguidos num dado. Você pode fazer a conta na mão… ou jogar o dado 10.000 vezes e simplesmente contar. Monte Carlo é isso — simular o problema milhares de vezes e deixar a frequência dos resultados virar a probabilidade.
Aplicado à Copa, a lógica é a mesma. Em vez de chutar quem ganha, eu simulo a Copa inteira — todos os jogos, da fase de grupos até a final — 10.000 vezes. Em algumas dessas Copas o Brasil é campeão; em outras cai nas quartas; em outras toma uma zebra logo na estreia. No fim, é só contar: "em quantas das 10.000 Copas cada seleção levantou a taça?" Essa porcentagem é a probabilidade.
Como o modelo funciona (em 3 passos)
1. A força de cada seleção. Cada time recebe uma "nota de força". E aqui está a parte mais delicada do modelo: eu não posso usar só o xG (gols esperados) das seleções. Por quê? Porque um gol contra San Marino não vale o mesmo que um gol contra a França, e cada seleção joga contra adversários de níveis muito diferentes nas eliminatórias. Então eu uso o ranking Elo como base — ele é comparável entre todas as seleções do mundo — e uso o xG recente só como um ajuste de forma.
2. Dos gols esperados ao placar. Com a força dos dois times, eu calculo quantos gols cada um deve marcar e sorteio um placar usando a distribuição de Poisson — a matemática padrão para contar gols no futebol.
3. Simular o torneio inteiro. Aí é só juntar tudo: simulo os 12 grupos, monto o chaveamento real do mata-mata (com prorrogação e pênaltis quando dá empate) e repito esse processo 10.000 vezes.
Os favoritos
Rodando as 10.000 simulações, esse é o pelotão da frente para 2026:
| Seleção | Chance de ser campeã |
|---|---|
| 🇪🇸 Espanha | ~19% |
| 🇫🇷 França | ~16% |
| 🇦🇷 Argentina | ~14% |
| 🏴 Inglaterra | ~12% |
| 🇧🇷 Brasil | ~9% |
| 🇵🇹 Portugal | ~6% |
| 🇳🇱 Holanda | ~5% |
| 🇩🇪 Alemanha | ~4% |
Um detalhe que me deixou mais confiante no modelo: essa ordem bate quase exatamente com a do supercomputador da Opta, que roda um processo parecido. Quando dois modelos independentes chegam na mesma fila de favoritos, é um bom sinal de que o método está de pé.
Copa 2026 — probabilidade por fase (meu modelo)
Monte Carlo, 10,000 simulações · força = Elo + xG · conteúdo educativo, não recomendação de aposta.
Grupo A
| Seleção | Round of 32 | Round of 16 | Quarterfinal | Semifinal | Final | Win |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 🇲🇽 Mexico | 90.1% | 54.5% | 23.9% | 9.6% | 3.9% | 1.3% |
| 🇨🇿 Czechia | 65.2% | 27.2% | 8.3% | 2.1% | 0.5% | 0.1% |
| 🇰🇷 South Korea | 67.9% | 30.5% | 9.5% | 2.4% | 0.6% | 0.1% |
| 🇿🇦 South Africa | 49.0% | 16.6% | 4.1% | 0.9% | 0.2% | 0% |
Grupo B
| Seleção | Round of 32 | Round of 16 | Quarterfinal | Semifinal | Final | Win |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 🇨🇭 Switzerland | 87.0% | 51.2% | 22.4% | 8.3% | 3.0% | 1.0% |
| 🇨🇦 Canada | 79.8% | 42.7% | 16.0% | 4.7% | 1.2% | 0.3% |
| 🇧🇦 Bosnia-Herzegovina | 63.3% | 26.7% | 8.1% | 1.9% | 0.5% | 0.1% |
| 🇶🇦 Qatar | 42.5% | 14.1% | 3.0% | 0.3% | 0% | 0% |
Grupo C
| Seleção | Round of 32 | Round of 16 | Quarterfinal | Semifinal | Final | Win |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 🇧🇷 Brazil | 97.8% | 68.2% | 47.4% | 28.6% | 16.2% | 8.7% |
| 🇲🇦 Morocco | 88.4% | 45.1% | 25.0% | 10.7% | 4.4% | 1.6% |
| 🏴 Scotland | 66.6% | 23.4% | 8.9% | 2.6% | 0.8% | 0.2% |
| 🇭🇹 Haiti | 14.2% | 2.1% | 0.4% | 0% | 0% | 0% |
Grupo D
| Seleção | Round of 32 | Round of 16 | Quarterfinal | Semifinal | Final | Win |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 🇺🇸 USA | 84.3% | 49.0% | 22.0% | 8.3% | 3.3% | 1.1% |
| 🇹🇷 Turkey | 77.1% | 39.4% | 15.5% | 5.1% | 1.5% | 0.4% |
| 🇦🇺 Australia | 55.2% | 19.6% | 5.2% | 1.4% | 0.4% | 0.1% |
| 🇵🇾 Paraguay | 57.5% | 22.0% | 6.1% | 1.5% | 0.3% | 0.1% |
Grupo E
| Seleção | Round of 32 | Round of 16 | Quarterfinal | Semifinal | Final | Win |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 🇩🇪 Germany | 96.3% | 65.9% | 32.8% | 18.5% | 8.6% | 3.8% |
| 🇪🇨 Ecuador | 80.5% | 36.8% | 13.1% | 4.7% | 1.4% | 0.5% |
| 🇨🇮 Ivory Coast | 65.4% | 23.8% | 6.8% | 1.9% | 0.5% | 0.1% |
| 🇨🇼 Curacao | 25.1% | 5.2% | 0.7% | 0.1% | 0% | 0% |
Grupo F
| Seleção | Round of 32 | Round of 16 | Quarterfinal | Semifinal | Final | Win |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 🇳🇱 Netherlands | 93.5% | 55.6% | 38.5% | 20.4% | 10.3% | 4.9% |
| 🇯🇵 Japan | 76.2% | 32.2% | 15.7% | 5.8% | 2.0% | 0.6% |
| 🇸🇪 Sweden | 57.2% | 19.0% | 7.1% | 2.1% | 0.6% | 0.1% |
| 🇹🇳 Tunisia | 43.0% | 11.9% | 3.4% | 0.9% | 0.2% | 0% |
Grupo G
| Seleção | Round of 32 | Round of 16 | Quarterfinal | Semifinal | Final | Win |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 🇧🇪 Belgium | 94.3% | 63.3% | 36.0% | 15.2% | 6.7% | 2.8% |
| 🇮🇷 Iran | 71.5% | 31.2% | 9.9% | 2.5% | 0.6% | 0.1% |
| 🇪🇬 Egypt | 67.4% | 27.6% | 8.2% | 2.2% | 0.4% | 0.1% |
| 🇳🇿 New Zealand | 36.1% | 9.4% | 1.6% | 0.2% | 0% | 0% |
Grupo H
| Seleção | Round of 32 | Round of 16 | Quarterfinal | Semifinal | Final | Win |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 🇪🇸 Spain | 99.1% | 76.5% | 57.6% | 45.1% | 29.7% | 18.9% |
| 🇺🇾 Uruguay | 90.0% | 41.4% | 24.2% | 12.8% | 5.3% | 2.1% |
| 🇨🇻 Cape Verde | 32.2% | 6.6% | 1.7% | 0.3% | 0.1% | 0% |
| 🇸🇦 Saudi Arabia | 32.5% | 6.6% | 1.9% | 0.4% | 0.1% | 0% |
Grupo I
| Seleção | Round of 32 | Round of 16 | Quarterfinal | Semifinal | Final | Win |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 🇫🇷 France | 97.6% | 79.8% | 57.4% | 40.9% | 26.0% | 16.2% |
| 🇳🇴 Norway | 78.0% | 45.0% | 20.7% | 8.8% | 3.6% | 1.2% |
| 🇸🇳 Senegal | 71.3% | 37.9% | 15.5% | 6.0% | 2.1% | 0.6% |
| 🇮🇶 Iraq | 19.1% | 5.2% | 1.0% | 0.1% | 0% | 0% |
Grupo J
| Seleção | Round of 32 | Round of 16 | Quarterfinal | Semifinal | Final | Win |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 🇦🇷 Argentina | 98.7% | 65.3% | 50.9% | 35.4% | 21.2% | 11.8% |
| 🇦🇹 Austria | 74.5% | 22.8% | 9.8% | 3.7% | 1.3% | 0.3% |
| 🇩🇿 Algeria | 61.8% | 16.2% | 5.8% | 1.5% | 0.4% | 0.1% |
| 🇯🇴 Jordan | 25.7% | 4.1% | 0.9% | 0.2% | 0% | 0% |
Grupo K
| Seleção | Round of 32 | Round of 16 | Quarterfinal | Semifinal | Final | Win |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 🇵🇹 Portugal | 95.7% | 68.8% | 45.1% | 25.4% | 13.5% | 6.7% |
| 🇨🇴 Colombia | 86.8% | 49.6% | 24.7% | 11.5% | 4.6% | 1.6% |
| 🇨🇩 DR Congo | 46.9% | 13.7% | 3.9% | 0.9% | 0.3% | 0.1% |
| 🇺🇿 Uzbekistan | 34.5% | 7.4% | 1.7% | 0.3% | 0% | 0% |
Grupo L
| Seleção | Round of 32 | Round of 16 | Quarterfinal | Semifinal | Final | Win |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 🏴 England | 97.7% | 75.6% | 53.8% | 34.4% | 20.7% | 11.3% |
| 🇭🇷 Croatia | 80.7% | 40.0% | 17.5% | 7.8% | 2.8% | 0.9% |
| 🇬🇭 Ghana | 46.9% | 13.6% | 3.9% | 1.0% | 0.2% | 0% |
| 🇵🇦 Panama | 37.9% | 10.0% | 2.4% | 0.6% | 0.1% | 0% |
E o Brasil?
Aqui mora a parte mais interessante. O Brasil é favorito em praticamente todo jogo que disputa — entre 54% e 64% de chance de vencer cada partida. Então por que a chance de ser campeão é de "apenas" ~9%?
A resposta é simples e meio cruel: para ser hexa, não basta vencer um jogo. Tem que vencer todos, um atrás do outro. E quando você multiplica probabilidade por probabilidade — 60% aqui, 58% ali, 55% na semi — o número vai derretendo. Favorito em cada jogo, azarão para levantar a taça. As duas coisas são verdade ao mesmo tempo.
Olha como a chance do Brasil encolhe a cada fase:
Classificar é quase certo (~97%). Mas chegar à final já é coisa de 1 em 6, e ser campeão, menos de 1 em 10. Não é pessimismo — é só a matemática de um torneio em que você precisa vencer seis mata-matas seguidos.
O que o modelo NÃO vê
Para ser honesto, nenhum modelo é bola de cristal. O meu não enxerga lesão de última hora, escalação, cansaço de viagem, fator emocional, nem aquele lance de sorte que decide um jogo. Ele trabalha com a força média das seleções e com a aleatoriedade do futebol — e o futebol, ainda bem, é imprevisível. É por isso que a zebra existe (e é por isso que a gente assiste).
Conclusão
No fim das contas, a Copa é decidida no campo, não na planilha. Mas modelos como esse ajudam a separar a emoção da realidade: eles colocam números onde normalmente só tem opinião e narrativa. E o recado de 2026 é claro — não existe um favelão isolado, e sim um grupo de seleções fortes, com o Brasil logo atrás dos primeiros.
Eu vou acompanhar esses números a cada rodada e atualizar conforme a Copa for andando. Segue aí para ver se o Brasil supera (ou confirma) a estatística.
Conteúdo educativo sobre probabilidade e dados — não é recomendação de aposta.
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